terça-feira, 10 de abril de 2012

Números da bola

Receitas variam de acordo com a audiência (Foto: site Placar)

O Brasil está em um novo patamar. Pelo menos dentro do futebol. Em poucos anos, as receitas dos clubes aumentaram muito. Se levarmos em conta apenas o dinheiro que entra pelos direitos de transmissão, os valores são muito elevados. O Corinthians, por exemplo, pulou de R$40,5 milhões para R$84 milhões de 2011 para 2012.


Só que a diferença, mesmo entre grandes times, também aumentou. A equipe do Parque São Jorge embolsa da Rede Globo R$29 milhões a mais do que Cruzeiro, Fluminense e Grêmio, clubes de tradição. A preocupação com esses números é grande. Transformar o Campeonato Brasileiro em um Campeonato Espanhol, em que dois times, Real Madrid e Barcelona, recebem mais da metade das receitas, mudaria o principal fator que diferencia a nossa competição: o equilíbrio. “O problema não é só o dinheiro que vem das emissoras, ou da emissora, melhor dizendo. Quem aparece mais, chama mais publicidade. Você prefere estampar sua marca na camisa de um clube que aparece quatro ou onze vezes na TV?”, indaga William Tavares, apresentador dos canais ESPN e da rádio Estadão ESPN.


Existe solução para o problema. A NFL, Liga de Futebol Americano, utiliza um método diferenciado e evita que os títulos fiquem monopolizados por algumas poucas equipes .“Na minha opinião, o movimento deveria ser parecido aos dos esportes americanos, mais especificamente a NFL, que dá mais dinheiro para quem fez pior campanha. Assim, os mais fracos podem investir mais e o campeonato ganha em equilíbrio técnico”, opina Conrado Giulietti, coordenador da equipe esportiva da rádio Estadão ESPN.


Mas uma boa administração pode levantar o potencial de um clube. Isso passa pela profissionalização de alguns departamentos. O principal é o marketing. A exploração da marca, a criação de programas de sócio-torcedor, o lançamento de produtos licenciados, a aproximação com grandes marcas que estiverem interessadas em investir no futebol, todos esses fatores dão ao clube uma receita alta.


O Internacional, de Porto Alegre, tem hoje 103 mil sócios. A meta da diretoria é chegar a 120 até dezembro. Através dessa renda, o clube conseguiu montar grandes times e vencer, duas vezes, a Libertadores da América, nos últimos seis anos. “O trabalho do departamento de marketing tem de extrapolar os limites do país. Eu vejo vários jovens com camisas do Milan, Arsenal, Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique. No exterior não acontece isso com os clubes brasileiros. Santos, Corinthians, São Paulo, Flamengo, Grêmio, Palmeiras, Internacional, têm de ser marcas mundiais”, diz William Tavares.


Campanha de sócio-torcedor bate recorde (Foto: site Internacional)

Também através do marketing, nomes consagrados voltaram para o futebol brasileiro. O Corinthians inovou e apostou alto quando trouxe Ronaldo. Um grande plano foi montado. O Fenômeno ganhava um salário fixo, mas a maior renda vinha dos patrocínios secundários da camisa do Timão. Após a aposentadoria, Ronaldo continuou ligado ao clube, como uma espécie de embaixador, um cara que levaria o nome do Corinthians para o mundo todo.


Hoje, a principal ação é vista no Santos. O clube conseguiu manter Neymar. Assim como aconteceu com Ronaldo, o craque do Peixe também tem um salário definido, mas recebe a maior parte do dinheiro de outra forma. A imagem do atleta foi usada dessa vez. O Santos cedeu grande parte dos direitos de imagem para o próprio jogador, que fatura com programas de publicidade. Volkswagen, Nike, Panasonic, Red Bull, Tenys Pé Baruel, Lupo, Ambev, Claro, Unilever e Santander. Essas são as 10 empresas que fecharam contrato com Neymar e exploram a imagem dele. Tudo isso trabalhado com a 9ine, empresa de Ronaldo, que cuida da imagem de atletas.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Onde está o problema?

“O Brasil é a referência de talento no futebol mundial.’ A frase dita pelo ex-jogador e hoje dirigente da Inter de Milão, o português Luís Figo, retrata o respeito que o mundo ainda tem pelo futebol brasileiro. Esse nível, claro, não foi conquistado por acaso. São cinco Copas do Mundo, o melhor jogador de todos os tempos, grandes times. O Brasil ajudou, e muito, a inserir a palavra arte no esporte mais popular do planeta.


Desde 1950, o país não joga um Mundial e passa sem ser percebido. Tivemos anos dourados com os esquadrões de 58, 62 e 70. As 24 temporadas seguintes não foram tão proveitosas para a sala de troféus da CBF. Apesar disso, a Seleção de 82, mesmo sem vencer, ganhou o prestígio que outras campeãs nunca tiveram.




Derrota em 82 mudou o destino da bola (Foto: site Placar)



A Copa dos Estados Unidos devolveu o Brasil ao topo do Mundo. O brilho, no entanto, não ficou pela beleza do espetáculo, mas sim pela eficiência da equipe. “Depois do tetra em 94, muito se valorizou a posição de volante, e nos últimos tempos a teoria de que não levar gols é mais importante do que procurar fazê-los”, afirma Conrado Giuliette, coordenador da equipe esportiva da rádio Estadão ESPN.


Os sistemas mudaram. O futebol mudou. Pela primeira vez, o Brasil venceu uma Copa com três zagueiros, em 2002. A formação tira um atleta do meio-campo. Abafa aquele que pensa, o armador, o organizador, o verdadeiro craque. “Quando um menino começa a se destacar, ele vai migrando de posição: ou recua, e vira volante, ou avança, e torna-se meia-atacante, como Kaká. A Argentina, por exemplo, mantém o sistema com o enganche, o 10 armador, em todas as suas equipes”, analiza Arnaldo Ribeiro, comentarista dos canais ESPN.


Talvez por isso, a ausência desse “cara” seja tão escancarada. Com isso, os clubes brasileiros buscam alternativas no futebol sul-americano. Nomes como Tevez, D`Alessandro, Montillo, Conca, Valdívia e Petckovic roubaram a cena e viraram protagonistas nos gramados daqui. Os exemplos não param por aí. Podemos listar Loco Abreu, Herrera, Guiñazu, Bollati, Pires, Marcelo Moreno, Miralles, Botinelli, enfim, diversos nomes que desembarcaram no país. Alguns com boa qualidade, outros nem tanto. Mas a realidade mescla dois fatores. A falta de qualidade no Brasil e a desproporcional diferença entre o poder econômico dos clubes brasileiros com relação aos times dos outros países da América do Sul.


O exemplo a ser seguido no momento está na Espanha. O Barcelona encanta pela posse de bola, pelo controle da partida, pela regularidade, pelo melhor jogador do mundo. Mas encanta ainda mais pela filosofia traçada há décadas. Trabalho que apresenta frutos. “A saída de Mourinho do Real Madrid causará mais estragos do que uma possível saída de Guardiola do Barcelona. No clube catalão, basta colocar um técnico que siga a filosofia implantada. No Real, o novo treinador terá de implantar a sua filosofia própria”, afirma Rene Simões, diretor técnico do São Paulo.


Rene fala com a esperança de um dia também se vangloriar de um fato com esse. Novo diretor técnico do São Paulo, o profissional iniciou um trabalho que visa unificar todas as divisões de base do clube, até chegar ao time principal. A expectativa é de resultado a longo prazo, mas “o exemplo Barça de ser” motiva. No jogo contra o Milan, pelas quartas de final da Liga dos Campeões, a equipe catalã entrou em campo com nove jogadores oriundos das categorias de base. Apenas o brasileiro Daniel Alves e o argentino Mascherano contrariaram a regra.



Messi é mais uma cria da base catalã (Foto: site Globoesporte.com)



“No Brasil, a formação já é errada por não se preocupar em formar homens e sim apenas jogadores. Assim, quando um atleta explode e vai para o exterior, acaba não dando certo. A formação cultural, o acompanhamento psicológico e a integração da família em todo o processo de formação são fundamentais. Aí é que está o problema”, finaliza William Tavares, apresentador dos Canais ESPN e da rádio Estadão ESPN